| 7-14-2004 |
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Gays querem participar
de concursos de dança de salão nos
EUA
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Eric
Marx
Em Nova York |
Organizadores dizem que casais GLS poderiam impedir que
o esporte se torne olímpico
Enquanto os dançarinos de salão deslizavam
em uníssono, espelhando os movimentos de contratempo
em um ritmo latino, um casal com roupas justas pretas conquistou
a atenção do público.
Gritando "Vai 201, vai 201", a platéia
animava o par, que rodopiava pela sala em uma demonstração
sensual e atlética de chutes no ar, volteios e piruetas.
O casal, uma das 24 equipes que participavam da rodada preliminar
do concurso de dança de salão do Instituto
de Tecnologia de Massachusetts (MIT), conquistou o segundo
lugar na divisão latina.
A única controvérsia foi o sexo do casal -os
dois são homens. Ao deixar os dançarinos Russell
Halley e Jorge Guzman participarem da competição
em abril, os organizadores do evento do MIT pela primeira
vez permitiram que dois homens dançassem juntos em
um campeonato. Halley e Guzman também estão
esticando os limites estabelecidos pela Associação
de Dançarinos de Salão Amadores dos EUA (Usabda),
que requer que um casal em competição seja
composto de um homem e uma mulher.
Os dois bailarinos dizem que as regras são arcaicas
e que provaram que dois homens podem dançar com força
e arte. Além disso, perguntam, se as questões
de identidade gay estão sendo estendidas ao ambiente
de trabalho e aos laços do casamento, então
por que não a um esporte profissional e amador?
Guzman, 41, corretor de ações, dança
com Halley há três anos e se alterna entre o
papel de líder e de acompanhante. "Vocês
viram as pessoas no MIT?" perguntou. "Elas estavam
gritando e pulando. Estavam felizes -heterossexuais e homossexuais-
porque compreendiam tudo que estávamos fazendo."
A dança de salão competitiva está crescendo
em popularidade e sua inclusão está sendo considerada
para os Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim. Um dos
argumentos para sua inclusão é que, como a
dança no gelo ou a patinação de casais,
a dança é um dos raros esportes onde atletas
homens e mulheres competem juntos, nos mesmos termos.
Há dois anos que Guzman e Halley competem internacionalmente
em torneios de dança de salão gays na Europa.
Mas esse gênero de competição é virtualmente
inexistente nos EUA, e os dois dançarinos, que moram
em Nova York, dizem que não têm tempo nem dinheiro
para voar até as competições em Hanover,
Munich e Londres.
"Gostaria de ter a oportunidade de competir",
disse Halley, 40, que dirige uma agência de talentos.
A Federação Internacional de Dança
Esportiva (IDSF), que tem sede na Europa e supervisiona as
competições de dança de salão
no mundo todo, diz que permitir casais de homens altera a
natureza fundamental do esporte.
"Assim como os dançarinos de Hopak não
têm que começar a acrescentar outros elementos
de outros grupos étnicos a suas danças, porque
isso contradiria fundamentalmente a essência da dança,
a dança esportiva não tem que começar
a acrescentar danças sobre outros tipos de relacionamento".
Essa foi a argumentação de Jim Frasier, que
dirige a comissão legal da federação,
referindo-se a uma dança folclórica ucraniana
para explicar por que sua organização quis
restringir casais de mesmo sexo.
Citando como exemplo o pasodoble, uma dança baseada
em movimentos de touradas, com o homem no papel de matador
central, Frasier acrescentou: "É sobre o relacionamento
entre um homem e uma mulher, usando a metáfora do
matador e da capa para expressar mais um aspecto do relacionamento
homem/mulher."
Para muitos americanos, a dança de salão ainda é principalmente
uma dança sexualmente expressiva, dificilmente associada
com a agilidade atlética e o vigor necessários
ao esporte. Apesar da dança como esporte não
atingir a exposição na grande mídia
e obter patrocínio nos EUA, ainda assim aumentou em
popularidade nos últimos 30 anos em comunidades, faculdades
e estúdios de dança privados.
A Associação de Dançarinos de Salão
Amadores dos EUA, que tem sede na Virgínia, tem sido
crucial nesse crescimento, especialmente com sua Rede de
Jovens e de Universitários (YCN). Mas muitos de seus
grupos universitários estão em revolta aberta
contra a interpretação da associação
da regra da Federação Internacional de Dança
Esporte, primariamente porque deixaria muitas mulheres de
fora, incapazes de competir em duas das competições
nacionais da associação. (Na dança de
salão, há três mulheres para cada homem,
de acordo com algumas estimativas.)
Ainda assim, muitos dos entrevistados dizem que essa é uma
questão de direitos iguais para homossexuais: por
isso o convite para Halley e Guzman.
"Se não começarmos a trabalhar com nossos
afiliados, eles vão perder toda a confiança
na Usabda e YCN, vão deixar a organização
e procurar outra", advertiu por e-mail Garry Morris,
coordenador da YCN, em outubro, ao secretário e ao
presidente da associação.
Morris, representando os dançarinos de mais de 300
campi universitários, propôs permitir que casais
de mesmo sexo participassem de competições
nacionais. A associação respondeu mudando formalmente
sua política para permitir a entrada de candidatos
de mesmo sexo em competições nacionais, mas
apenas em níveis iniciais.
"Não mandamos nas universidades", disse
Archie C. Hazelwood, presidente da associação,
observando que o grupo não tinha proibido casais de
mesmo sexo no nível regional, onde mulheres freqüentemente
dançam com outras mulheres no que é chamado
de danças "divertidas".
"Eles têm suas próprias regras e tentamos
apóiá-los", disse Hazelwood. "Mas
quando chega a hora da arena pública, a questão é diferente."
Helen Carroll, coordenadora do Projeto Homofobia nos Esportes,
do Centro Nacional de Direitos das Lésbicas, um grupo
de San Francisco, acredita que a postura da associação
estava sendo influenciada pela revisão pendente pelo
Comitê Olímpico Internacional.
"Eles reagiram fortemente porque não querem
que ninguém pense na possibilidade de casais gays
entrando em uma área esportiva tradicional, como as
Olimpíadas", disse Carroll.
"A não ser que sua organização
cresça muito e faça muito dinheiro, vão
continuar lutando com toda sua força com o argumento
de que isso vai prejudicar nosso público, vai prejudicar
o marketing", acrescentou Carroll.
Hazelwood disse que as mãos da organização
estão atadas, por causa das regras da federação
internacional. "Tentamos cumprir as restrições
que nos impuseram", disse ele. "Para que nossos
competidores entrem em um evento internacional, temos que
obedecer as regras internacionais."
As Olimpíadas podem trazer endosso, exposição
e respeito a um esporte que está começando
a ser aceito pelo grande público, disse Jack Rothweiler,
presidente da segunda maior operadora de estúdios
da dança, a Fred Astaire Dance of North America.
A dança de salão vem se tornando cada vez
mais popular, na última década, especialmente
entre casais jovens e solteiros. Rothweiler, entretanto,
atribuiu o crescimento em grande parte a imigrantes da Europa
Oriental, Escandinávia e América Latina.
Casais de mesmo sexo, acrescentou, "podem prejudicar
a imagem um pouco no início, porque a imagem da dança
de salão não está formada; pode ser
prematuro."
Gary Stroic, vice-presidente da divisão americana
da Associação de Dançarinos de Salão
Amadores, disse que um aumento na participação
gay poderia desestimular a participação de
homens heterossexuais.
"Eventualmente, queremos obter patrocínios e
transmitir o esporte pela televisão, e podemos ter
implicações com isso", disse ele.
Casais de mesmo sexo poderiam ser mais bem recebidos se,
por exemplo, os corpos governantes criassem uma divisão
separada -medida que Halley e Guzman disseram que aplaudiriam.
"Com casais de sexo oposto, as mulheres são
geralmente um a dois palmos menores e tendem a ser mais leves.
Isso faz com que os homens liderem e elas acompanhem",
explicou Benjamin Soencksen, ex-dançarino profissional
e gerente geral da Stepping Out Studios em Manhattan, que
há muito aceita casais de mesmo sexo.
"Sim, eles estão desenvolvendo uma dança
diferente, e sim, a arte também está mudando",
disse Soencksen. "Mas a questão da expressão
artística só precisa de uma visão diferente",
disse ele. "Você não pode assistir com
as mesmas expectativas que tem para um casal de sexo oposto.
São dois homens dançando e eles podem sentir
o mesmo amor e paixão, mas terão que expressá-lo
de forma diferente, com base na estrutura de poder dentro
do casal."
Para Halley e Guzman, que não são romanticamente
envolvidos, isso significa mudar as regras de líder
e acompanhante muitas vezes durante uma única música
e criar movimentos coreograficamente estimulantes e inovadores,
para atrair a atenção do público e dos
juizes.
"As mulheres, em geral, fazem todas as extensões
-elas são flexíveis", disse Halley. "Eu,
por um acaso, sou flexível, e minhas extensões
de perna equiparam-se as das mulheres. E isso surpreende,
porque ninguém espera ver um homem esticar a perna
acima da cabeça".
"Fizemos isso na nossa rumba no MIT", disse ele
com evidente satisfação e orgulho. "O
público ficou louco."
Tradução: Deborah Weinberg
Email:
moun@moun.com |