| 7-14-2004 |
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O barato pode sair
caro
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| Paula
Neiva |
Economia e Negócios
Os remédios no Brasil estão entre os mais
baratos do mundo. Mas isso não é tão
bom
NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os preços dos remédios no Brasil e nos EUA
O Brasil está entre os primeiros colocados no ranking
dos países com os menores preços de medicamentos
do mundo. Em 2000, ocupava o nono lugar da lista. No final
de 2002, pulou para a quinta colocação, atrás
apenas de Coréia do Sul, Colômbia, Nova Zelândia
e Chile. Os dados resultam de um estudo encomendado pela
Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica
(Febrafarma) à consultoria IMS Health, que conferiu
quanto custam os 200 remédios mais vendidos em trinta
países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Na comparação
de preços, foram excluídos os produtos que
não estão disponíveis no mercado nacional.
No Brasil, o consumidor paga, em média, 15 centavos
de dólar por cada comprimido que compra – 40%
menos que o preço médio internacional. Nos
Estados Unidos, que têm os maiores preços entre
os países pesquisados, desembolsa-se em média
quatro vezes mais pelos mesmos remédios. Há motivos
bem concretos para essa discrepância. O primeiro deles é a
diferença de poder aquisitivo. Obviamente, não
haveria como o consumidor brasileiro arcar com os mesmos
custos dos americanos, que têm uma renda per capita
cerca de dez vezes maior que a nacional. Mas isso está longe
de ser uma explicação que dê conta das
proporções do fenômeno.
Fabiano Accorsi
Linha de produção de um remédio no
Brasil: preços 40% mais baixos que a média
mundial
Desde 2000, o governo exerce um forte controle de preços
sobre os remédios vendidos em território brasileiro.
Os valores não podem ultrapassar o teto máximo
estabelecido pela Câmara de Regulação
do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão comandado
pelo Ministério da Saúde que aprova ou rejeita
os preços sugeridos pelos laboratórios farmacêuticos.
Para calcular o máximo a ser cobrado pelos fabricantes
e revendedores, a CMED pesquisa nove mercados internacionais:
Austrália, Canadá, Espanha, Estados Unidos,
França, Grécia, Itália, Nova Zelândia
e Portugal. O teto brasileiro sempre fica abaixo daquele
do país em que o remédio tem o menor preço. "Em
média, um de cada dez preços sugeridos pela
indústria precisa ser revisto", diz Luiz Milton
Veloso Costa, secretário executivo da CMED. Outro
fator que contribuiu para a queda dos preços dos medicamentos
no Brasil foi a entrada dos genéricos no mercado a
partir de 2000 – que custam cerca de 40% menos que
o produto original.
Remédios com preços baixos são, evidentemente,
um ótimo negócio para o consumidor. Mas não
representam uma boa perspectiva a longo prazo. Em 2000, o
Brasil era o décimo maior mercado farmacêutico
mundial. No ano passado, terminou na 14ª posição.
Nesse período, o faturamento do setor no país
caiu de cerca de 6 bilhões de dólares para
menos de 5 bilhões de dólares anuais. Com essa
redução, os laboratórios redirecionaram
seus investimentos para mercados em que obtêm maior
lucro. Em 1999, ano anterior ao início da política
de controle de preços, o investimento dos fabricantes
de remédios no Brasil foi de 260 milhões de
dólares. Quatro anos depois, essa soma caiu para menos
da metade. O país perdeu recursos para pesquisa e
modernização das linhas de produção
das fábricas. Mais uma razão contribuiu para
anuviar o ambiente: a ameaça de quebra de patentes
que paira sobre os laboratórios, desde que o governo
tomou essa atitude em relação aos remédios
contra a aids. Os benefícios políticos e humanitários
foram grandes, mas para os fabricantes ela sinalizou um caminho
perigoso. Manter a patente de um remédio significa
recompensar quem investiu para criar um novo medicamento.
Quebrá-la, pura e simplesmente, é privar a
indústria de ter um retorno do seu investimento. Coisa
de regimes autoritários. Não é por outro
motivo que a China se sente à vontade nesse terreno.
A última dos chineses foi quebrar a patente do Viagra.
Entre as principais queixas da indústria farmacêutica
está o fato de o governo não levar em consideração
os custos de produção dos medicamentos. Para
o desenvolvimento de uma única molécula que
servirá de base para um novo medicamento, o investimento
médio gira em torno de 860 milhões de dólares. É preciso
pagar pesquisadores, maquinário, análises e
levantamentos clínicos. Trata-se, ainda, de um processo
longo, que demora, em média, 14 anos: de cada 10.000
moléculas pesquisadas, apenas uma mostra-se viável
do ponto de vista científico e comercial para virar
remédio. Como se trata de um setor extremamente competitivo,
as empresas também gastam pesado para convencer médicos
e pacientes das vantagens de seus produtos. Apenas nos Estados
Unidos, os gastos com marketing ultrapassam os 10 bilhões
de dólares anuais.
Não bastasse controlar os preços com mão
de ferro, o governo brasileiro impõe uma das mais
altas tributações do mundo aos produtos do
setor. Até 27% do que se paga por cada remédio
são impostos. Dessa porcentagem, 18%, em média,
são referentes ao ICMS, o imposto sobre circulação
de mercadorias e serviços. Na Coréia e no México,
por exemplo, não há taxação nenhuma
sobre medicamentos. Nos Estados Unidos, as maiores tributações
não chegam a 10% do valor final do medicamento. Com
impostos altos e o preço final ao consumidor tabelado,
a margem de lucro dos fabricantes reduz-se, o que deixa o
negócio menos interessante. Para fazer com que ele
continue num país como o Brasil, a indústria
utiliza uma estratégia de preços mundiais.
Ou seja, cobra ainda mais nos países ricos. "Involuntariamente,
cada laboratório é obrigado a bancar o Robin
Hood", diz Felipe Ohana, professor de macroeconomia
da Fundação Getúlio Vargas de Brasília
e coordenador do estudo.
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