| 7-12-2004 |
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Pobre é bom
negócio
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| Diogo
Mainardi |
"Os pobres, nos livros de Guimarães Rosa,
falam melhor do que nós, pensam melhor do
que nós, se comportam melhor do que nós.
Rosa glorifica a bandidagem, as idéias
e a espiritualidade dos pobres. Ele era
o John Travolta da 'nonada'"
A gente gosta de pobres. A gente gosta tanto
deles que nunca pensou em torná-los menos pobres.
A gente gosta de votar em pobres, de reclamar de pobres,
de escrever sobre pobres. De fato, a literatura brasileira
desapareceria se não fossem eles. A Feira de Livros
de Paraty acaba de homenagear Guimarães Rosa, o maior
representante do pauperismo na literatura nacional. Os pobres,
em seus livros, falam melhor do que nós, pensam melhor
do que nós,
se comportam melhor do que nós. Dá vontade
de largar tudo e ir morar no sertão mineiro. Enquanto
eu atravesso a Visconde de Pirajá para comprar meio
quilo de alcatra no açougue, os sertanejos rosianos
atravessam um universo épico. Enquanto eu combato
os cupins no chão de sinteco da sala, eles combatem
o Diabo em pessoa. Rosa glorifica a bandidagem, as idéias
e a espiritualidade dos pobres. Uma espiritualidade muito
semelhante à sua,
aliás. Rosa conseguia acreditar simultaneamente em
umbanda, kardecismo e cientologia. Era o John Travolta da "nonada".
Lula, no balanço de um ano e meio de poder, tentou
demonstrar que está trabalhando pelos pobres, embora
não tenha podido dar um aumento relevante do salário
mínimo. Um aumento para 275 reais, segundo os economistas
petistas, representaria um custo adicional aos cofres públicos
de cerca de um bilhão e meio de reais. Um bilhão
e meio de reais é a quantia que Lula gasta anualmente
em propaganda, para persuadir o eleitorado pobre de que ele
está trabalhando pelos pobres. Que eu saiba, nenhum
governo do mundo gasta tanto em propaganda quanto o nosso.
Um bilhão e meio de reais foi também o que
a Petrobras gastou para comprar uma distribuidora de botijões
de gás. O maior problema do Brasil é o gigantismo
do Estado. Como responde Lula? Aumentando ainda mais o Estado.
Um bilhão e meio de reais, enfim, é bem menos
do que Lula gastou na liberação de recursos
aos seus aliados, para obter votos no parlamento ou para
financiar obras eleitoreiras. A democracia brasileira se
fundamenta no achaque eleitoral e na compra de votos.
Lutar pelos pobres, no Brasil, é sempre um bom negócio.
O caso mais flagrante é o das aposentadorias aos perseguidos
pelo regime militar. José Dirceu foi um dos primeiros
beneficiários da Lei de Anistia, passando à frente
de muitos octogenários e nonagenários mais
pobres do que ele. A rigor, Dirceu ficou menos pobre por
ter defendido uma revolução comunista em favor
dos pobres. Uma dúvida: ele entrega um quinhão
de sua aposentadoria ao partido ou a regra se aplica apenas
ao seu salário ministerial? Quem também furou
a fila da Comissão de Anistia e garantiu uma rica
aposentadoria vitalícia foi Carlos Heitor Cony. Como
se sabe, Cony contestou duramente o regime militar, sobretudo
quando esteve na direção de órgãos
subversivos como a revista Desfile ou quando se prestou a
redigir os manifestos indignados do grande revolucionário
Adolpho Bloch.
Ainda bem que o Brasil tem tantos pobres. Dá e sobra
para todo mundo: para os escritores, para os políticos,
para os revolucionários, para os jornalistas. O que
seria de nós sem tantos pobres?
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