| 10-13-2003 |
|
 |
 |
Prostituição
com diploma
|
SARAH
SCHAFER
Newsweek |
Cada vez mais mulheres de
nível universitário
são atraídas para a venda de sexo
Na China, a prostituição está tão
difundida que até mesmo as mulheres mais cultas e
instruídas estão aderindo a essa antiquíssima
profissão. Quando Xun, uma delicada garota de rabo-de-cavalo,
de 23 anos, originária da Província de Sichuan
tornou-se o primeiro membro de sua família a entrar
na faculdade, sabia que, freqüentando a conceituada
universidade da cidade de Wuhan, no sul da China, poderia
melhorar a vida de sua família, que vivera na pobreza
por gerações e gerações. Trabalhadores
desempregados sem nenhum seguro social, os pais de Xun subsistiam
com a renda de uma pequena loja de conveniência pertencente
a seu pai. Em Wuhan, ela foi trabalhar como garçonete,
mas o pagamento mal cobria a mensalidade da faculdade. Quando
o gerente de um hotel local lhe ofereceu um emprego com uma
remuneração mais de dez vezes superior ao que
ela ganhava servindo às mesas, Wu estava muito preocupada
com a possibilidade de ter de voltar para casa e sentia-se
esgotada e solitária demais para recusar a oferta.
Tornou-se prostituta.
Sempre que um homem vem a seu hotel pedindo uma moça
inteligente e culta, do jeito que ele quer, o chefe de Xun
chama o "Número Um". Numa escala de quatro,
esta é a classificação mais elevada,
reservada para moças universitárias. Mas raramente
isso é uma fonte de orgulho para Xun. "A gente
precisa sobreviver e continuar levando a vida e eu simplesmente
preciso ignorar o lado negativo daquilo que agora estou fazendo",
disse Xun, aluna da Faculdade de Finanças da Universidade
de Zhong Nan. Xun pediu para ser identificada apenas pelo
primeiro nome.
"Consegui enviar regulamente dinheiro a meus pais.
Não me atrevo a mandar-lhes uma quantia muito grande
porque poderiam desconfiar de onde está vindo esse
dinheiro", disse ela.
Nas cidades de toda a China, a prostituição
tornou-se tão disseminada que até mesmo a elite
instruída está entrando nesse negócio.
O Partido Comunista quase eliminou o comércio sexual
na década de 1950, obrigando em parte alguns espiões
de bairros a observarem a chegada e a saída de visitantes
masculinos em cada família e declarando o lenocínio
como um delito grave, punido com a pena de morte.
Mas a prática foi ressuscitada na década de
80, quando a China introduziu reformas de mercado ao estilo
capitalista. Mulheres desesperadas que perderam seus empregos
e benefícios estatais começaram a vender-se
aos novos ricos, ávidos de aventuras. Hoje há mais
de 10 milhões de prostitutas em todo o país.
Muitas delas vêm das zonas rurais para a cidade grande
despreparadas para o elevado custo de vida ou para a cultura
materialista. Algumas não recebem nenhuma ajuda financeira
dos pais e não podem dar-se ao luxo de pagar os estudos
exercendo um emprego legítimo. Outras invejam suas
colegas de classe que conseguem pagar suas mensalidades escolares
e, além disso, freqüentam restaurantes finos,
vestem roupas elegantes da moda e, nos fins de semana, viajam
em aviões a jato para fazer excursões. Para
muitas dessas mulheres, a prostituição representa
uma fuga da vida sombria e limitada, vivida por seus pais
- empregados de fábricas, agricultores pobres ou trabalhadores
desempregados. "Existe uma elevada demanda de garotas
de programa bem educadas", diz Li Yinhe, conhecida pesquisadora
do sexo da Academia Chinesa de Ciências Sociais.
A prostituição é uma questão
muito embaraçosa para o Partido Comunista, que anteriormente
construiu sua reputação sobre a eliminação
dos males sociais.
Por isso, o governo central ignora em grande parte a prostituição,
muito embora algumas doenças sexualmente transmissíveis,
como a aids e a gonorréia, estejam se espalhando pela
população operária e ameaçando
a saúde do país. Mas está sendo muito
difícil manter essa cegueira voluntária. Um
jornal de circulação nacional informou recentemente
que 8% das estudantes universitárias de Wuhan - o
que significa pelo menos várias centenas - vendem
seus corpos oferecendo favores sexuais em troca de dinheiro.
Pequim obrigou o chamado Diário de Referência
da Juventude a publicar uma retratação e a
demitir o repórter responsável pela matéria,
Chen Jieren.
Apesar disso, após a publicação do
artigo, as autoridades de Wuhan iniciaram também uma
repressão contra os proprietários de estabelecimentos
situados ao longo da infame "Rua dos Bares", perto
da Universidade de Wuhan, "aconselhando-os" a não
abrigar funcionárias sexuais.
Mas o atrativo desse negócio, tanto no lado da oferta
quanto da demanda, ainda está frustrando as melhores
intenções das autoridades. Homens ricos em
viagens de negócios continuam visitando a rua para
se encontrarem com universitárias. "É uma
tremenda tentação quando a gente vê esses
homens ricos, porque eu sou uma estudante pobre", diz
Wang Fang, que aceitou um emprego na temporada de verão
servindo bebidas no bar Boca Grande perto do campus. Wang
diz que os homens lhe imploram para ir com eles em troca
de dinheiro, mas ela resiste. Ela entende, porém,
por que outras jovens sucumbem à tentação.
"A vida de minhas colegas de classe é muito
dura. Algumas ganham apenas 300 yuan por mês",
ou seja menos de US$ 40.
Sem dúvida, nem sempre são mulheres desesperadamente
pobres que se tornam prostitutas. Por exemplo, Qi, uma garota
de 24 anos, nascida em Wuhan, que abandonou os estudos na
Faculdade de Administração Econômica
da Universidade de Hubei depois de cursar três anos,
em parte porque via moças de sua idade ganhando milhares
de dólares como acompanhantes ou garotas de programa
. "A vida é curta e nós precisamos gozá-la",
diz Qi , olhando o relógio de tempos em tempos . "Não
são apenas as moças de famílias pobres
que estão fazendo esse negócio. Moças
de famílias ricas estão fazendo a mesma coisa.
Ninguém detesta o dinheiro e ninguém tem receio
de ganhar demais", diz. Qi, que pediu para ser identificada
apenas pelo primeiro nome, trabalha durante o dia numa drogaria
vendendo maquiagem da Maybelline. Mas algumas noites por
semana, ela se instala em um sofá no luxuoso saguão
de um hotel local de cinco estrelas em Wuhan, onde facilmente
encontra empresários em viagem procurando companhia.
Muitos especialistas chineses argumentam que o país
deveria legalizar a prostituição. "Uma
mulher tem o direito de fazer o que quiser com seu corpo,
de ganhar dinheiro com seu corpo", disse Li, pesquisadora
do sexo.
Além do aspecto da liberdade pessoal, a regulamentação
do comércio sexual poderia ser essencial para conter
a disseminação da aids que afeta pelo menos
1 milhão de pessoas, de acordo com estimativas de
Pequim - alguns ativistas afirmam que o número é muito
maior - e é talvez a maior crise que a China enfrenta.
(As prostitutas entrevistadas para este artigo - todas elas
moças educadas em faculdades - disseram que nem sempre
usam preservativos e pensam que simplesmente lavando-se após
o sexo podem evitar a doença). "O governo está numa
encruzilhada. Se legalizar a prostituição,
arruinará sua reputação socialista.
Mas se não o fizer, a aids e outras doenças
sexualmente transmitidas desestabilizarão a sociedade",
disse Liu Dalin, professor da Universidade de Xangai.
É uma escolha difícil - exatamente como é difícil
a escolha enfrentada por muitíssimas mulheres jovens
da China.
Email: info@moun.com |