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11-24-2003  

A copa do juro real é nossa

O Banco Central baixou a taxa básica para 17,5%, mas o Brasil ainda lidera o ranking mundial do custo do dinheiro

Chrystiane Silva

Celso Junior/AE


Decoração de Natal: consumidor reage mais rápido à queda da taxa de juro

Notícias diárias sobre economia

Como toda mercadoria, o dinheiro tem um custo. O menor custo do dinheiro em cada país é determinado pelo que se chama juro real – calculado quando se extraem da taxa de juro do Banco Central os efeitos anualizados da inflação. No Brasil, com a mexida para baixo na taxa feita pelo BC na quarta-feira passada, o juro básico caiu de 19% para 17,5%. Com isso o juro real ficou em 10,9%. É uma taxa ainda altíssima. O custo do dinheiro no Brasil é assustador quando é comparado com o juro real cobrado em outros países. O Brasil é o campeão da carestia monetária, seguido no ranking por Israel, um país em guerra, pela Hungria e pela Turquia. Portanto, apesar de todo o esforço do governo e das pressões da sociedade, o impulso definitivo para o crescimento sustentado ainda não está garantido pelo atual patamar do juro.

A imensa maioria das empresas brasileiras ainda não pode tomar empréstimos em bancos para financiar ou ampliar suas atividades. A razão é aritmética. Só o governo consegue empréstimos do sistema bancário pagando 10,9% de juro real. Os bancos cobram bem mais das empresas. As melhores, mais sólidas e mais líquidas atualmente no Brasil são as firmas ligadas aos negócios no campo, o chamado agronegócio. O juro médio real cobrado anualmente pelos bancos para empresas desse setor passa de 20%. Como elas têm, em média, um lucro anual, descontada a inflação, superior a 20%, essas empresas conseguem empréstimos – e geram caixa para pagá-los. São exceção. Tomem-se como exemplo dois dos mais ativos segmentos da economia brasileira: os supermercados têm margens líquidas de 2% e as montadoras de automóveis, de apenas 0,2%. "Ao contrário do que diz o governo, a verdade é que não existe demanda de crédito no Brasil. Pelo menos demanda de empresas que podem provar sua capacidade de pagar os empréstimos", diz o presidente de um grande banco americano em atividade no Brasil.

No decorrer da última década, o Brasil foi dependente do capital internacional para equilibrar seu balanço de pagamentos. Isso exige manter o juro real alto para atrair investidores. Hoje, a situação mudou um pouco. O superávit comercial de 23 bilhões de dólares previsto para este ano diminui um pouco a necessidade de financiamento externo. Além disso, contribuiu o fato de que o juro real no mundo está muito baixo. Os Estados Unidos operam com juros negativos. O Japão com juro real zero. O México com 1,4%. Nesse cenário, sustentam alguns analistas, o Banco Central poderia baixar o juro em uma velocidade maior. Em teoria isso é razoável, mas, pelo que se conhece das convicções de Henrique Meirelles, presidente do BC, o ambiente econômico brasileiro não suportaria juro real abaixo de 9% ao ano sem gerar pressões inflacionárias. Portanto, o mais provável é que o gradualismo continue. "O gradualismo do Banco Central na redução dos juros é uma espécie de sintonia fina de alguém que já encontrou a emissora mas ainda ouve chiados", diz Andrei Spacov, economista do Unibanco.

A vulnerabilidade do Brasil pode ser medida também por outro indicador, o chamado risco soberano. O do Brasil caiu dos 2.400 pontos no ano passado para menos de 600. Mesmo assim, é um dos mais altos do mundo. O do México, por exemplo, flutua em torno de 250 pontos. Como a confiança é um bem difícil de adquirir e que se perde com facilidade, a avaliação de risco dos países sobe mais rapidamente do que cai. "O Brasil tem um longo histórico de indisciplina fiscal. Para ter um risco menor precisa manter a disciplina por muito mais tempo", diz Alexandre Bassoli, economista-chefe do HSBC. No fundo, a taxa de juro real e o risco soberano são definidos pelo tamanho da dívida pública do país em relação ao seu produto interno bruto (PIB). Mesmo convivendo com uma taxa campeã do mundo no torneio dos piores juros para o crescimento, o consumidor brasileiro tende a reagir psicologicamente bem à queda das taxas. Os consumidores, afinal, são movidos por expectativas. E, se depender delas, a economia vai ter um belo presente de Natal neste ano.

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